Fantasia Literária – O que é, onde vive, quem escreve

A fantasia existe na literatura desde o início dos tempos. Em As Mil e Uma Noites, Xerazade já contava histórias sobre gênios mágicos. Estes elementos fantasiosos sobrevivem até os dias atuais, com histórias contemporâneas que falam de feitiçaria, elfos, demônios, espíritos e até mesmo carneiros mágicos.

Podemos definir o gênero da fantasia na literatura como: obras que utilizam fenômenos sobrenaturais ou mágicos como elementos do enredo.

Essa (vaga) definição engloba desde a fantasia épica de Tolkien (Senhor dos Anéis, O Hobbit) à fantasia urbana de Neil Gaiman (Deuses Americanos, Lugar Nenhum), passando pelo mundo de magia de J. K. Rowling (Harry Potter) e o terror fantástico de Stephen King (O Iluminado, A Torre Negra).

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Classificar uma obra num gênero específico é algo limitador e, por vezes, errôneo, porém, a fantasia, na condição de gênero literário, possui suas próprias estruturas de narrativa, arquétipos de personagem, tropos e – por que não – clichês. Quem nunca ouviu falar no velho sábio (Gandalf, Dumbledore, Ben Kenobi, Merlin), na luta do bem contra o mal (Harry vs Voldemort, Link vs Ganondorf, Frodo vs Sauron) ou em objetos mágicos de grande poder (O Um Anel, Pedra Filosofal, Triforce, Crenshinibon)? Esses são conceitos que o gênero absorveu com o passar dos tempos, e raras são as obras de fantasia que não tomam emprestados diversos destes conceitos.

Quem nunca ouviu falar no velho sábio (Gandalf, Dumbledore, Ben Kenobi, Merlin), na luta do bem contra o mal (Harry vs Voldemort, Link vs Ganondorf, Frodo vs Sauron) ou em objetos mágicos de grande poder (O Um Anel, Pedra Filosofal, Triforce, Crenshinibon)?

Mas, se a fantasia existe na literatura desde o início dos tempos, quando realmente surgiu o gênero da fantasia, com todos os seus clichês? A resposta curta é: J. R. R. Tolkien.

Isso não significa que antes de Tolkien não houvessem histórias épicas e fantasiosas. Desde a Grécia Antiga, heróis como Ulisses e Hércules lutavam contra feras mitológicas para salvar o dia. Contudo, foi com O Hobbit O Senhor dos Anéis que Tolkien sacudiu o mercado literário e definiu a fantasia que conhecemos hoje em dia. A partir daí, centenas de autores começaram a criar obras que – para o bem ou para o mal – bebiam da fonte que Tolkien originou.

Foi com O Hobbit O Senhor dos Anéis que Tolkien sacudiu o mercado literário e definiu a fantasia que conhecemos hoje em dia.

E, como toda ficção de gênero (ficção científica, por exemplo), a fantasia criou tanto uma legião de fãs como leitores hostis. Seja por utilizar temas que se afastam do mundo real ou por sua execução muitas vezes formulaica, a fantasia é considerada por muitos críticos como leitura de menor qualidade, mais dedicada a inventar mundos fictícios e sistemas de magia complexos do que a criar literatura de qualidade.

Então, por que a fantasia ganhou esse estigma com o passar do tempo? É possível reaproximar a ficção fantástica da ficção literária “sem gênero”?

Para esse fim, propomos a criação de um termo já existente na língua inglesa, mas quase inutilizado em português:

Fantasia Literária

Do inglês literary fantasy, a fantasia literária (pelo menos como propomos neste artigo) mescla o uso da fantasia em obras que não necessariamente possuem elementos suficientes para se encaixarem puramente no gênero da fantasia.

É possível reaproximar a ficção fantástica da ficção literária?

Mas, peraê! Então quer dizer que obras como Hamlet, onde há um fantasma, seriam fantasia literária?

Hmmm… não exatamente.

Já existe uma corrente literária (muito conhecida na América Latina e Ásia) que também trata deste assunto. Chama-se realismo mágico. Entre os autores mais famosos deste estilo estão Gabriel García Márquez e Julio Cortázar.

E o que diferencia o realismo mágico da fantasia literária?

Gosto bastante de pensar na diferença da seguinte forma:

O realismo mágico insere elementos mágicos num mundo fundamentalmente mundano, enquanto a fantasia literária retrata experiências mundanas num mundo fundamentalmente mágico.

Como assim?

Por exemplo, no livro Cem Anos de Solidão, de García Márquez, vemos fenômenos inexplicáveis, como personagens que ficam velhos mas não morrem, ou que criam asas e ascendem aos céus. Só que o livro não se preocupa em explicar nenhum desses acontecimentos. Eles apenas acontecem. A história não gira em torno deles.

O realismo mágico insere elementos mágicos num mundo fundamentalmente mundano, enquanto a fantasia literária retrata experiências mundanas num mundo fundamentalmente mágico.

Já na fantasia literária, os elementos sobrenaturais são visto como sobrenaturais, como qualquer outra ficção fantástica. A diferença é que a narrativa e o estilo de escrita fogem dos padrões do gênero da fantasia, tirando o foco do worldbuilding (construção de mundos), sistemas de magia e estruturas e arquétipos narrativos.

Para ilustrar, vejamos alguns exemplos:

  • Jonathan Strange & Mr Norrell da Susanna Clarke: o livro tem elementos fantásticos, pois fala de magia, mas é quase que uma ficção histórica, com um estilo que remete a escritores ingleses do século XIX como Charles Dickens e Jane Austen;
  • Os Magos, de Lev Grossman: Esse livro já foi comparado como “Harry Potter para adultos”, apesar de possuir pouca aventura e focar mais em temas maduros;
  • O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro: Apesar da fantasia presente através de uma névoa que causa esquecimento, o autor trabalha os elementos fantásticos através de um estilo ambicioso e realista.
  • Luneta Mágica de Joaquim Manuel de Macedo: Neste clássico nacional, o autor faz uma crítica à sociedade e às hipocrisias do dia-a-dia, usando como tema uma luneta que altera magicamente a maneira como o usuário vê o mundo.
  • Entre outros autores, também temos Haruki Murakami, Neil Gaiman, Helene Wecker, José Saramago, Atlas Moniz, Bruno Magno Alves e muito mais.

Mas, então, Guerra dos Tronos é fantasia literária?

Como dito no início do artigo, rotular obras em gêneros não é uma tarefa simples e direta. Porém, apesar da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo fugir de diversos clichês do gênero, tratar de assuntos polêmicos e adultos e fazer um estudo sobre a sociedade e a natureza humana, não é fantasia literária (de acordo com os argumentos citados no artigo). Vejamos:

  1. Diversos elementos que definem Guerra dos Tronos ainda estão bastante enraizados no gênero da fantasia. A temática medieval, o mundo fictício expansivo, as criaturas fantásticas, os arquétipos de personagens;
  2. estilo como a história é contada se aproxima bastante de outras obras do gênero. George R. R. Martin dá ênfase na ambientação e no desenvolvimento do mundo por ele criado (e como isso afeta os personagens), influenciado diretamente por Tolkien;
  3. Os livros focam em grandes acontecimentos (nobreza, guerras, traições, política) e não na introspecção dos personagens;
  4. Escrita mais focada em ser eficiente e mostrar a situação do que na beleza e “qualidade literária” da prosa;
  5. Leitores não habituados ao gênero certamente se sentirão desorientados pelo excesso de descrições e enorme quantidade de informações existentes (mapas, árvores genealógicas, idiomas, etc).

Se tivéssemos que citar alguns obras da fantasia que se aproximam da ficção literária, exemplos mais adequados seriam O Nome do Vento (uma parte possui narração mais elegante e inspirada, e a outra, um estilo mais “aventuresco”) e O Último Lobisomem (apesar da temática, possui um enredo bastante introspectivo).

Em meu livro de estreia, Réquiem para a Liberdade, apesar de não fugir da estrutura padrão dos livros de fantasia/aventura, o elemento fantástico não é o foco, e sim o relacionamento entre os personagens e os questionamentos que surgem diante das situações em que eles se encontram.

Em resumo, apesar da armadilha que é a classificação de uma obra, devemos identificar os conceitos literários que permeiam a fantasia contemporânea, tão adoradas pelos fãs, para que possamos fugir dos clichês e apreciar os diferentes estilos narrativos que porventura surjam diante de nós. Talvez um deles nos surpreenda. 😉

Para entender um pouco mais do assunto, recomendo este artigo (em inglês):

https://www.ebscohost.com/novelist/novelist-special/literary-fantasy

Sugiro que leiam também meu artigo sobre estrutura narrativa para entender melhor como funciona a criação de um enredo.

Lee out! o/

requiem

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