Aperfeiçoando sua escrita – Parte 1/5 – Verbos

No artigo anterior, aprendemos a estruturar uma história. Hoje, exercitaremos algumas técnicas para aperfeiçoar sua escrita.

Estas técnicas o ajudarão a manter seu texto conciso, claro e mais efetivo em evocar imagens na mente de seu leitor, de forma que ele possa sentir e se emocionar com o que você descreve. Se seu protagonista tem uma arma encostada na cabeça, você quer provocar arrepios de seu leitor. Se ele perde um ente querido, você quer arrancar lágrimas.

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Mas como fazer isso?

A resposta não é simples como parece. Uma série de fatores contribuem para uma identificação do leitor com o texto. Entretanto, o único fator que você pode controlar são as palavras que põe no papel. Sendo assim, devemos extrair o máximo de significado de cada uma delas. Cada palavra conta.

Se seu protagonista tem uma arma encostada na cabeça, você quer provocar arrepios de seu leitor. Se ele perde um ente querido, você quer arrancar lágrimas.

Para tal, precisaremos nos aprofundar em classes gramaticais (sim, aquilo que você aprendeu na escola). Por exemplo, considerem a frase:

João olhou atenciosamente o grupo de pessoas e ficou bastante emocionado com os sorrisos alegres que viu.

Uma frase sucinta e suficientemente clara, certo? Bom, em cada um das partes desta série de artigos, iremos reformulá-la, levando em consideração algumas dicas e boas práticas da escrita em prosa.

Cada palavra conta.

P.S: Muitas dessas práticas vão passar batidas no primeiro rascunho. Como escritor, você deve reescrever, reescrever, reescrever e polir seu texto. Não ache que isso é trabalho de revisor: quanto maior a qualidade de sua prosa, mais chances você terá de ser lido e (por que não?) publicado.

P.S2: Lembrando novamente que a primeira regra da escrita é que não há regras. Cada dica que descrevo aqui pode e deve ser contestada caso alguém a ache desnecessária ou incorreta.

Esta série de artigos será dividida em cinco partes. São elas:

  1. Utilize verbos expressivos
  2. Cuidado com voz passiva
  3. Advérbios desnecessários não embelezam seu texto
  4. Troque adjetivos por substantivos mais significantes
  5. Corte construções dispensáveis

A dica de hoje é:

Utilize verbos expressivos

Para um texto efetivo, você precisa usar as palavras certas na hora certa. Você quer evitar verbos genéricos, que causem ambiguidade, confusão e complexidade desnecessária. Ao utilizar verbos que expressem melhor o sentimento ou ação que você quer transmitir, você reforça a intensidade e relevância da sua frase.

  • Jonathan se deitou na cama.
  • Ned tirou a espada da bainha.
  • Carla não passou na prova.
  • Ana sentiu um vento frio.
  • João estava sempre pagando o aluguel em dia.
  • Foi difícil acordar depois da festa.

Não há dúvidas de que as frases acima passam as mensagens pretendidas, mas como poderíamos deixá-las mais expressivas?

Você quer evitar verbos genéricos, que causem ambiguidade, confusão e complexidade desnecessária.

Os verbos possuem uma função importante nessa tarefa, pois têm o poder de expressar ação e movimento. Considerem as frases acima reescritas:

  • Jonathan desabou na cama.
    • O verbo desabar expressa melhor a ação tomada por Jonathan. Ele não apenas deitou. Com a reescrita, sabemos que ele estava tão cansado a ponto de desabar na cama.
  • Ned desembainhou a espada.
    • Neste caso, o verbo desembainhar, além de mais forte que tirar, faz o complemento da bainha tornar-se dispensável, o que ajuda a enxugar seu texto.
  • Carla reprovou.
    • Da mesma forma que na frase anterior, o verbo reprovar nos dá brecha para encurtar a frase original. Além disso, em grande parte das vezes, é preferível utilizar um verbo que expresse negação do que tacar um não na frase (ex: escapou ao invés de não foi pego, esqueceu ao invés de não lembrou).
  • Ana se arrepiou com o vento frio.
    • O verbo arrepiar evoca sensações de forma mais eficiente do que o verbo genérico sentir. Sempre que você quiser causar um impacto emocional em seu leitor, prefira verbos fortes e sensoriais como ofuscar entorpecer.
  • João sempre pagou o aluguel em dia.
    • Tempos verbais também são de suma importância ao se inserir um verbo. Evite tempos verbais que deixem seu texto prolixo e confuso. Às vezes algumas construções podem parecer mais extravagantes e bonitas, mas sempre vale a pena prezar pela clareza.
  • Tardei em acordar depois da festa.
    • Os verbos serestar costumam ser pouco expressivos. Se for possível reformular a frase de forma a retirá-los, mas sem perder simplicidade e significado, faça-o. Essa dica também ajuda a evitar a voz passiva (mais detalhes na segunda parte desta série de artigos).

Como podemos ver, uma simples mudança de verbo ou tempo verbal pode dar uma cara nova ao seu texto e revelar novas possibilidades de reescrita. Vamos considerar mais um exemplo, um trecho retirado do meu livro Réquiem para a Liberdade:

Seu corpo congelou. A espada cortou o ar à sua frente e as trevas preencheram seus sentidos.

Percebem como os verbos têm uma função fundamental nas frases? São eles que dão movimento e ditam as ações que acontecem na cena.

Para finalizar, se reformularmos a frase proposta no início, utilizando as técnicas que aprendemos hoje, temos:

ANTES:

João olhou atenciosamente o grupo de pessoas e ficou bastante emocionado com os sorrisos alegres que viu.

DEPOIS:

João observou o grupo de pessoas e sensibilizou-se com os sorrisos alegres que viu.

Viram como a frase já ficou mais enxuta?

Agradeço imensamente por acompanharem o artigo até o fim. Convido-os a escrever um comentário abaixo e contribuir para a discussão. Nos vemos na próxima aula, quando falaremos sobre voz passiva.

Lee out! o/

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7 thoughts on “Aperfeiçoando sua escrita – Parte 1/5 – Verbos

  1. Ótimas dicas, Thiago! Com certeza acompanharei as próximas! Parabéns! Gostei da forma como escreveu sobre a arte de escrever. Mostra um grande domínio, como já era esperado. Keep going!

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  2. São ótimas dicas, especialmente para quem busca seguir o conselho “show, don’t tell”. Escolher os verbos corretos pode ajudar muito na hora de “mostrar” a história. Acho que o melhor exemplo disso é “Jonathan desabou na cama”. Nem se tornou necessário dizer “Jonathan estava cansado” (que se constitui em contar), porque o verbo “desabou” já mostra isso.

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